O meu marido viajou no fim de semana e os vizinhos viram quem se estava a despedir dele.

ANIMAUX PRÉFÉRÉS

O marido foi embora no fim de semana e os vizinhos viram com quem ele estava

Larisa estava ocupada com as flores no parapeito quando percebeu que o marido carregava uma bolsa em direção ao carro. Era estranho: ele não tinha dito nada sobre uma viagem.

—Andréi, para onde você vai? —ela chamou da cozinha.

—Para a casa de campo do Serguéi. Para ajudar com o telhado —respondeu ele sem levantar o olhar—. Volto no domingo à noite.

Larisa secou as mãos com uma toalha e foi até a janela. Andréi já tinha ligado o motor, mas por alguma razão demorava a ir embora, como se estivesse esperando alguém.

—E se eu for com você? Faz tempo que não vejo a Marina —sugeriu ela.

—Não precisa. É trabalho de homem, poeira, sujeira. E além disso não tem espaço no carro, eu estou levando ferramentas.

Larisa deu de ombros. De fato, as ferramentas ocupavam todo o porta-malas. Andréi acenou com a mão e foi embora. Ela voltou às suas violetas sem imaginar que meia hora depois o telefone tocaria.

—Lara, sou eu, Valentina do terceiro andar —a voz da vizinha soava insegura—. Você poderia passar aqui em casa? Queria te perguntar sobre os mudos.

—Claro, já vou.

Valentina abriu a porta com um roupão, o rosto preocupado.

—Entre, sente-se. Quer chá?

—Obrigada, vou tomar um pouco. O que aconteceu com os mudos?

Valentina colocou a chaleira e ficou em silêncio, claramente procurando as palavras.

—Lara, não sei se deveria dizer isso… Talvez eu esteja enganada.

—Valya, o que houve? Você está me assustando.

—Eu vi o seu Andréi quando ele estava indo embora. Ele… não estava sozinho.

Larisa sentiu um frio no peito.

—Como assim não sozinho? O Serguéi estava com ele?

—Não, Lara. Ele estava com uma mulher. Jovem, magra. Eles se beijaram ao lado do carro e depois ela sentou no banco da frente.

A xícara tremia nas mãos de Larisa. Ela a colocou na mesa, com medo de derrubar o chá.

—Você tem certeza de que não se enganou? Talvez tenha sido…

—Lara, eu não sou cega. Eu estava na varanda estendendo roupa. Eles estavam bem embaixo da janela. Ela o abraçou pelo pescoço e ele acariciou as costas dela. Não foi um gesto amigável, entende.

Valentina sentou-se em frente a ela e pegou sua mão.

—Me desculpe por te contar. Mas eu gostaria que alguém me dissesse se eu estivesse no seu lugar.

Larisa assentiu, embora por dentro tudo estivesse revirado. Vinte e três anos de casamento. Vinte e três anos pensando que Andréi era uma pessoa confiável e honesta.

—Descreva-a —ela pediu em voz baixa.

—Alta, morena. Cabelo até os ombros, cacheado. Vestido vermelho ou bordô. Uns trinta anos, no máximo.

Larisa fechou os olhos. Sim, ela conhecia essa mulher. Inna, a nova contadora da empresa do Andréi. Ele falava dela: jovem, competente, recém-divorciada.

—Lara, você está bem? Deixa eu te acompanhar até em casa.

—Não, obrigada. Preciso pensar.

Em casa, Larisa sentou-se no sofá e ficou olhando para a parede. Os pensamentos se enredavam sem formar uma imagem completa. Ela lembrou dos últimos meses: como Andréi passava mais tempo no trabalho, como comprava camisas novas, como começou a cuidar mais de si.

O telefone tocou de repente e ela se assustou.

—Mãe, oi! Como você está? —a voz da filha Katya soava alegre.

—Katya, querida… Está tudo bem.

—Mãe, você está falando estranho. O que aconteceu?

Larisa não conseguiu segurar. As palavras saíram sozinhas: sobre Andréi, sobre a mulher, sobre que ela não sabia o que fazer.

—Mãe, espera. Respira. E se for um mal-entendido?

—Que mal-entendido, Katya? A vizinha o viu com seus próprios olhos.

—Tá bom, mas o que você vai fazer?

—Eu não sei. Eu simplesmente não sei. Eu tenho cinquenta e um anos, Katya. Para onde eu vou agora?

—Mãe, não fala besteira. Cinquenta e um não é uma sentença. Você é bonita, inteligente, tem trabalho. Mas primeiro precisamos descobrir tudo.

Katya estava certa, pensou Larisa. Ela precisava esclarecer, não se deixar levar pelo desespero.

No dia seguinte, ela encontrou Marina, esposa de Serguéi, na loja.

—Marina, oi! Como você está? Os meninos já estão consertando o telhado?

Marina olhou para ela surpresa.

—Que telhado? Serguéi está em casa assistindo futebol. Por quê?

—Mas Andréi disse que foi para sua casa de campo ajudar.

—Lara, nós vendemos a casa de campo no ano passado. Você esqueceu?

Larisa sentiu o chão se abrir sob seus pés. Então Andréi tinha mentido. Simples e descaradamente, na cara dela.

—Desculpa, Marina. Acho que me confundi.

Em casa, Larisa andava de um lado para o outro sem encontrar paz. Ela queria ligar para Andréi e dizer tudo o que sentia. Mas o telefone não tocava; ele não ligava.

À tarde, chegou a vizinha do andar de baixo, tia Zina.

—Larisa, posso entrar? Eu trouxe borsch. Fiz muito.

—Obrigada, tia Zina. Entre.

A senhora mais velha olhou para ela com atenção.

—Você está pálida. Doente?

—Não, só estou com dor de cabeça.

—E seu marido? Não o vejo há muito tempo.

—Ele foi para a casa de campo. Com amigos.

A tia Zina balançou a cabeça.

—Olha, Larisa, eu vivi muito. Vi de tudo. Homens de certa idade ficam loucos. Acham que a juventude volta se se envolverem com uma jovem.

Larisa estremeceu. Será que tia Zina também sabia de algo?

—O que você quer dizer?

—Ontem eu vi seu Andréi com uma moça. Pensei que talvez fosse sobrinha ou algum parente.

—Como ela era?

—Jovem, bonita. Eles estavam em um café, em uma mesa perto da janela. Estavam de mãos dadas. Eu estava passando por ali, indo à farmácia.

Larisa abaixou a cabeça. Então eles não só tinham ido a algum lugar; eles se viam na cidade, iam a cafés, não se escondiam.

—Larisa, me desculpa se falei algo errado. Mas as mulheres se entendem. Se algo está acontecendo, não fique calada. É preciso conversar.

Quando tia Zina foi embora, Larisa pegou o telefone e discou o número de Andréi. Toques longos, depois o correio de voz.

—Andréi, sou eu. Me liga quando puder.

Ele retornou a ligação apenas tarde da noite.

—Lara, oi. O que aconteceu? Você ligou.

—Como você está? E o telhado?

—Bem. Muito trabalho. Estou muito cansado.

—Manda um abraço ao Serguéi por mim.

—Claro.

Larisa ficou em silêncio, reunindo coragem.

—Andréi, quem era a mulher que estava com você no carro?

Houve um silêncio. Longo e pesado.

—Que mulher? Do que você está falando?

—Os vizinhos a viram. Morena, cacheada. Eles se beijaram.

—Lara, o que você está dizendo? Que vizinhos? Eu estava sozinho.

—Andréi, não minta. Eu já sei. Marina disse que Serguéi estava em casa e que eles não têm casa de campo. Tia Zina os viu em um café.

Outro silêncio. Depois um suspiro.

—Lara, vamos conversar quando eu voltar.

—Não, agora. Quem é?

—Eu disse que quando eu voltar. Tchau.

Ele desligou. Larisa olhou para o telefone, sentindo as lágrimas subirem. Vinte e três anos. Vinte e três anos acreditando na sua família. E ele…

Ela passou o sábado todo em casa, sem sair. Katya ligava para se oferecer para ir, mas Larisa recusava. Ela queria ficar sozinha e organizar seus pensamentos.

À noite, Valentina chegou.

—Lara, como você está? Eu estou preocupada.

—Não precisa se preocupar. Você estava certa. Ele estava com ela.

—Ele admitiu?

—Não exatamente. Mas também não negou. Disse que conversaríamos quando ele voltasse.

Valentina sentou-se ao lado dela no sofá.

—Me diga, o que você sente? Além da dor.

Larisa pensou. O que ela sentia?

—Sabe, Valya, é estranho. Eu pensei que ia chorar, gritar. Mas eu estou… com raiva. Muito raiva. Não só dele, também de mim.

—De você? Por quê?

—Porque eu não vi. Ou não quis ver. Ele não começou ontem. Provavelmente faz tempo. E eu o justificava: trabalho, cansaço, idade.

—Lara, você não é culpada. Ele escolheu te enganar.

—E sabe o que mais me irrita? Que ele mente. Mesmo agora, quando tudo é óbvio, ele continua mentindo. Como se eu fosse uma idiota.

Valentina assentiu.

—Os homens são assim. Acham que vamos acreditar em qualquer besteira.

—E você o que faria no meu lugar?

—Honestamente? Eu o mandaria embora. Imediatamente e para sempre. Mas é a minha opinião. Você deve decidir.

O domingo se arrastou sem fim. Larisa limpava, cozinhava, tentava ler, mas os pensamentos voltavam a uma única coisa: o que ela diria a Andréi quando ele voltasse.

Ele chegou tarde, quando já estava escuro. Larisa ouviu a batida da porta do carro e o trancar.

—Oi —disse ele em voz baixa ao entrar.

—Oi.

Andréi entrou na sala e sentou-se no sofá. Larisa sentou-se em frente a ele no outro sofá.

—Então? —ele perguntou.

—Lara, não é o que você pensa.

—E o que é então?

—Simplesmente… nós conversamos. Mais por trabalho.

—Andréi, eu não sou idiota. Por trabalho não se beija nem se vai embora junto no fim de semana.

Ele esfregou o rosto com as mãos.

—Tudo bem. Sim, tem algo entre nós. Mas não é sério. É só…

—Só o quê?

—Só precisava me sentir homem. Entende?

Larisa riu, amarga e furiosa.

—Então comigo você não se sente homem?

—Lara, estamos juntos há tantos anos. Tudo virou rotina. E aqui…

—Aqui uma jovem e bonita. Claro.

—Isso vai passar. Eu sei que vai passar.

—E eu não quero esperar que passe.

Andréi olhou para ela surpreso.

—O que você quer dizer?

—Quero que você vá embora. Hoje.

—Lara, não fala besteira. Para onde eu vou?

—Para a casa da sua Inna. Ou aluga um apartamento. Isso não é problema meu.

—Lara, vamos conversar com calma. Como adultos.

—Já estamos conversando com calma. Eu não grito, não choro. Só constato um fato: não quero viver com alguém que me engana.

—Mas o apartamento é nosso. Compramos juntos.

—Então vendemos. Dividimos o dinheiro. Ou você me paga a sua parte.

Andréi se levantou e começou a andar pela sala.

—Lara, isso é nossa família. Vinte e três anos. Você realmente vai destruir tudo por…

—Não sou eu quem destrói. Você já destruiu. Eu só tiro conclusões.

—Pense de novo. Não tome decisões precipitadas.

—Eu já pensei. Faça as malas.

Andréi ficou um momento, depois foi ao quarto. Larisa ouviu como ele dobrava as roupas, como o armário rangia.

—Lara —ele chamou do quarto—. E se eu dormir na casa do Serguéi hoje à noite? Amanhã a gente conversa.

—Não, Andréi. Já é tarde para conversar.

Ele saiu com uma mala na mão.

—Eu te ligo amanhã.

—Ligue.

Quando a porta se fechou, Larisa sentou-se no sofá e de repente sentiu… alívio. Como se um peso tivesse saído dos seus ombros.

Ela pegou o telefone e discou o número de Katya.

—Mãe, e aí? E o papai?

—Katya, seu pai foi embora. Vamos nos divorciar.

—Mãe, você tem certeza?

—Totalmente. Sabe o que eu entendi? Eu não quero viver com alguém que não me respeita. Que mente na minha cara.

—Mãe, eu te apoio. Seja qual for a sua decisão.

—Obrigada, querida. Eu vou superar.

E Larisa realmente sabia que iria superar. Pela primeira vez em muitos anos ela se sentiu livre. Dolorida, assustadora, mas livre.

Na manhã seguinte, Valentina ligou.

—Lara, como foi a conversa?

—Ele foi embora.

—Sério? E você como está?

—Sabe, Valya, estou bem. Até bem. Como se eu tivesse saído de uma prisão.

—Lara, você é corajosa. Nem todo mundo tem coragem.

—E o que eu tinha a perder? Ficar como uma esposa traída? Fazer de conta que nada aconteceu? Não, obrigada.

Larisa se aproximou da janela e olhou para a rua. O sol brilhava. Começava uma nova semana. Uma nova vida.

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