Baixei-me para desligar o telemóvel do meu marido, que estava a dormir e era o aparelho que ele tinha escolhido para usar durante as nossas férias. O telemóvel desbloqueou acidentalmente, e o que vi no ecrã encheu-me de horror.
Cheguei a casa depois de um turno exaustivo. Numa das mãos, levava uma sacola de compras; na outra, os medicamentos. O hospital estava hoje um completo caos; tudo o que eu queria era um banho e um pouco de paz e sossego.

Em casa, tudo estava como sempre. Louça na pia, coisas espalhadas, o meu marido no sofá com o telemóvel. Perguntei-lhe se escolheríamos a viagem juntos, mas ele dispensou, dizendo que ia dar uma vista de olhos a tudo sozinho. Não discuti, embora a raiva já estivesse a crescer dentro de mim. Há muito que vivemos mais como vizinhos do que como marido e mulher.
À noite, foi para o quarto mais cedo do que eu. Fiquei sentada na cozinha durante muito tempo, pensando que não precisávamos destas férias para ir para o mar, mas sim para nós próprios. Quase tínhamos parado de falar a sério.
Durante a noite, acordei com um silêncio estranho. O quarto estava escuro; apenas o ecrã do telemóvel brilhava com uma fraca luz azul. O meu marido dormia de lado, o telemóvel ao lado, quase a cair da sua mão.
Baixei-me para o desligar para que a luz não me incomodasse. O telemóvel tinha desbloqueado acidentalmente e nenhuma página de ofertas de viagens abriu no ecrã.
O que lá vi foi um verdadeiro choque para mim.

Primeiro, vi o site de uma seguradora. Uma apólice, emitida em meu nome. O valor era tão elevado que me deu água na boca. A data de emissão: há uma semana.
Desloquei a página para baixo. No histórico de pesquisas, constava uma consulta: « Acidente com indemnização paga pelo seguro ».
Um arrepio percorreu o meu corpo.
Abri o separador com as passagens. Dois bilhetes para a viagem de ida. Apenas uma para o regresso. E esse bilhete estava emitido em nome do meu marido.
Fiquei de pé, debruçada sobre a cama, a olhar para o homem adormecido com quem tinha vivido durante tantos anos. Uma imagem começou a formar-se lentamente na minha mente. Ele tinha planeado tudo. As férias, o seguro, o facto de não haver bilhete de regresso para mim.
Aquilo não eram férias. Era um plano. E compreendi imediatamente que ele pretendia ver-se livre de mim.
Lentamente, guardei o telemóvel e deitei-me ao lado dele. Respirava calmamente, completamente alheio ao facto de eu saber de tudo.
De manhã, agi como se nada tivesse acontecido. Sorri, falámos sobre o hotel e perguntei que fatos de banho deveria levar. Estava satisfeito consigo mesmo, achando que tudo estava a correr conforme o planeado.

Mas durante a minha hora de almoço, dirigi-me à seguradora e cancelei a apólice. Depois, entrei em contacto com um advogado. Já tinha todas as capturas de ecrã: o histórico de pesquisas, as multas, os dados.
E nessa noite, quando o meu marido chegou a casa, já estavam polícias à sua espera. Não fiz escândalo. Simplesmente mostrei as provas.
Tinha planeado um « acidente ». E estava a ser processado criminalmente.
E as férias aconteceram mesmo. Eu só fui sozinha.